A música para koto e sua performance em apresentações coletivas ou individuais precisa seguir as regras do passado? Deve mirar outros palcos e outros ouvidos?
Provavelmente, Miriam Saito já se perguntou sobre isso e suas ações revelam as respostas. Em 2002, junto com seu marido, Shizan (Shigeo) Saito, apresentou-se no I Encontro da Diversidade Cultural (no Parque da Aclimação em São Paulo). Interpretou canções populares e infantis na 4ª Feira Japonesa em Recife e clássicas no 1º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Etnomusicologia. Apresenta-se no Sesc de São Paulo, na Semana Japonesa em Goiânia, no show beneficente para o Hospital do Câncer em São Paulo. Ou ainda, ao ar livre, para crianças da favela do Morumbi.
Nada disso é surpresa para alguém que, em 2003, após aprovação nos testes (de teoria e solfejo, sem nenhuma conexão com o conteúdo do koto!), conseguiu o registro na Ordem dos Músicos do Brasil. “A atitude é pioneira em admitir que o público-alvo, descendente ou não, é o brasileiro, e não mais o nikkei que pensa estar morando num pequeno Japão dentro do Brasil”. Quem faz essa análise é Alice Lumi Satomi, em sua tese de doutorado Dragão Confabulando: Etnicidade, Ideologia e Herança Cultural através da música para Koto no Brasil, na Universidade Federal da Bahia, em 2004.
Um grupo da segunda geração
Nessa pesquisa sobre diversos grupos musicais que incluem o repertório para koto, Alice enfoca o Miwa-kai como um grupo liderado pela segunda geração, que busca “a modernidade e a ocidentalização”, preservando o continuum das duas gerações pelas apresentações voluntárias para entidades beneficentes da comunidade.
A história familiar de Miriam Sumie Saito tem 1931 como referência, quando o casal Miwa e Yoshimi Miyoshi (ela com 29 anos de idade; ele, 30) emigraram ao Brasil. Na bagagem dele, um shakuhachi; e dela, entre outros instrumentos, dois shamisen. Trabalharam na zona rural até 1936 – quando Yoshimi foi contratado pelo Consulado Japonês e, finalmente, puderam trocar a enxada pelos instrumentos musicais.
Em 1939, o casal Miyoshi fundava o Grupo de Estudos de Música e Dança Japonesa, cuja estréia coletiva se deu em novembro, no Clube Lira de São Paulo. O título em japonês, “Noite da Música e Dança Japonesa”, continuou por cerca de 50 anos, a cada apresentação. Miwa tocava shamisen, koto e kokyû (cordofone similar ao shamisen tocado com arco); e Yoshimi, shakuhachi (ao lado de alguns companheiros do navio de imigrantes).
Foi uma vida totalmente dedicada à música. O professor Yoshimi (que, em 1959, recebeu o título Okuden, um dos seis níveis para ensino das artes tradicionais e o pseudônimo Jûzan Miyoshi), faleceu em 1968. A professora Miwa, após sofrer derrame, em 1984, (faleceu em 1993), passou a ter a filha Miriam como assistente. Em 50 anos de atividades, orientou 70 alunos (55 isseis e 15 nisseis), dos quais, 26 de shamisen, 29 de koto e 15 dominando ambos os instrumentos.